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Camarão (in memoriam)

Cristiana Dias/Secult-PE

Cristiana Dias/Secult-PE

Quando Antonio Ferreira da Silva e Josefa Alves Freire viram nascer o filho, não imaginavam que ali começava a trajetória de um grande sanfoneiro do agreste. Na verdade, o início de tudo tem a influência do pai, exímio tocador de oito baixos, a quem o filho, desde criança, passou a acompanhar nas andanças musicais. Na labuta cotidiana, enquanto o sanfoneiro ia para a roça, o filho de sete anos matreiramente ia experimentando os sons da sanfoninha pé-de-bode, até o dia em que o pai descobriu as artes da criança engenhosa, emocionou-se e passou a cultivar o talento do herdeiro, levando-o para as festas, onde o garoto prestava atenção nos músicos e depois, em casa, tirava os mesmos sons no instrumento. O menino conquistou definitivamente o pai executando, de ouvido, os acordes de Maria Bonita, um dos maiores sucessos àquela época. E o mestre Camarão, ou Reginaldo Alves Ferreira, tem consciência de que foram decisivos esses primeiros momentos da infância dedicados à música. Natural de Fazenda Velha, Brejo da Madre de Deus, é também emblemático o próprio dia do nascimento: 23 de junho de 1940, véspera de São João.

Foi em Caruaru – a mais importante cidade do Agreste pernambucano, protagonista de uma das mais tradicionais festas juninas do Estado e contemplada, ainda na década 1970, com o título de Capital do Forró – que Camarão construiu as bases da carreira artística. Começou a trabalhar, aos 20 anos, na Rádio Difusora daquela cidade, por onde passaram importantes nomes da música brasileira, como Sivuca e Hermeto Pascoal. Foi na mesma rádio que ganhou o apelido, dado por Jacinto Silva. Luiz Gonzaga o conheceu na difusora, tocando como profissional. Tinha 18 anos. Graças à amizade surgida entre ambos, o rei do baião produziu dois discos de Camarão, pela RCA Victor, em 1969 e 1970. Gonzaga foi, na verdade, o seu grande mestre, embora nunca esqueça a importância dos ensinamentos paternos. Na discografia, o artista contabiliza, ao lado dessa feliz parceria com Luiz Gonzaga, 28 discos, entre long plays, compactos, 78 rotações e CDs, a maioria fora de catálogo. É de 1998 o CD Camarão Plays forró, produzido na Inglaterra e com circulação exclusiva na Europa.

Inventivo desde o princípio, foi o mestre quem criou, em 1968, a primeira banda de forró no país, a Banda do Camarão; quem introduziu sopros (tuba, clarinete, trombone e piston) em banda de forró; quem criou a Orquestra Sanfônica de Caruaru, em que diversas sanfonas executam não só variados ritmos juninos, mas também frevo e maracatu. Norteando-se pela música desde a primeira infância, o mestre chegou a acompanhar o rei do baião, após conhecê-lo num programa da Difusora de Caruaru, mesma rádio onde passaram músicos renomados e onde surgiu o seu primeiro conjunto musical, ou seja, o primeiro trio de Camarão, o Trio Nortista, liderado por ele, um dos maiores sanfoneiros nordestinos, tocador de forró nas latadas das fazendas e arraiais juninos, experiente forrozeiro de animados grupos pés-de-serra. O trio era formado com os músicos Jacinto Silva e Ivanildo Leite. Afinadíssimo na sanfona, acompanhou grandes nomes da música nordestina, a exemplo de Sivuca, Dominguinhos, Santanna, Marinês, Jackson do Pandeiro, Arlindo dos Oito Baixos. O repertório de Camarão é, como manda a tradição da sanfona nordestina, generoso nos ritmos regionais – xote, xaxado, forró, baião e arrasta-pé.

O nome do Maestro Camarão corre mundo. Em 1961, foi a sanfona dele quem representou Pernambuco no primeiro aniversário de Brasília, a convite do presidente Jânio Quadros. Viaja acompanhado do Trio Nortista, que toca, então, em vários eventos comemorativos. Tem participado de encontros de acordeonistas pelo país, graças ao talento e maestria com que empunha a sanfona. Em 2004, participa do projeto O Brasil da Sanfona, de Myriam Taubkin, que produziu dois CDs, um livro de fotografias e um DVD. Fixado no Recife há quase trinta anos, mantém a Escola Acordeon de Ouro, fundada há uma década no bairro de Areias, onde já formou diversos músicos nas artes dessa invenção vienense de 1829, que, no Brasil, ganhou um sotaque bem nordestino e fez fama. Para facilitar a transmissão de conhecimentos, elaborou uma cartilha, em que registra importantes informações acerca dos instrumentos de fole, do manejo do fole, como escolher e manusear o acordeom, além de noções elementares de música. Marcelo de Feira Nova, Julinho do Acordeom, Ellan Ricard, Gleyson Alves, Juquinha, Deivison, Diego Reis e Cezinha do Acordeom são alguns dos reconhecidos sanfoneiros que passaram pela escola do mestre. Em parceria com Salatiel d’Camarão, desenvolve o projeto De pai para filho, com a realização de shows musicais, e, ainda, Sanfona nas escolas, voltado para oficinas em escolas públicas. Certamente inspirado na atitude do próprio pai, Camarão estimula e oferece contribuição decisiva à carreira dos iniciantes e, inclusive, à do próprio filho, parceiro e continuador mais que legítimo da obra do mestre.

Na manhã do dia 21 de abril de 2015, Camarão morre, no Recife. Porém, o resfolego da sua sanfona e o seu orgulho em difundir a música nordestina continuam ressoando em nossa terra.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo o vídeo ‘Música Pura como a Terra Nordestina’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre a vida do Mestre Camarão, na série ‘Pernambuco Vivo’.

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