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“O sonho do ‘pobre feliz’ é viver no centro da cidade, perto do trabalho”

Moradores da Ocupação 9 de Julho defendem o benefício de estar na região central e evitar mais de quatro horas em transporte público para trabalhar. Também refutam acusações de extorsão

Márcia Carneiro, uma das moradoras da ocupação 9 de Julho.
Márcia Carneiro, uma das moradoras da ocupação 9 de Julho. TONI PIRES

Foi através de uma amiga que Márcia Carneiro, de 44 anos, conheceu o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC). Trabalhadora doméstica em imóveis residenciais e corporativos de São Paulo, ela gastava mais de duas horas em transporte público para percorrer os 40 quilômetros que separam o município de Itaquaquecetuba para chegar ao centro da cidade. No fim do dia era mais duas horas de volta. Decidida a dar um passo adiante e mudar de vida, juntou-se então à ocupação no antigo Hotel Cambridge. “Aqui no centro você tem uma qualidade de vida diferente. Descansa mais, tem condições de trabalhar feliz. É isso o que o governo não quer, ver o pobre feliz. Quanto mais no fim do mundo, melhor para o governo”, argumenta a mulher, que conversa enquanto prepara o jantar da família e um café para os visitantes.

Hoje, poucos anos depois da decisão, Márcia aguarda a Prefeitura terminar a reforma do Cambridge para finalmente financiar sua casa própria. O imóvel se transformará nos próximos dois anos em um edifício de habitação social. Enquanto isso, vive na Ocupação 9 de Julho, um dos cinco edifícios ocupados pelo MSTC, em um apartamento amplo com suas duas filhas, um filho e um neto. São dois quartos, um banheiro, uma sala, cozinha e área de serviço reformados por ela, como corresponde a cada família que vive na ocupação.

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O ponto forte é uma longa e larga varanda que rodeia parte do apartamento e onde familiares e amigos se reúnem para um churrasco nos fins de semana. De lá se vê o imponente prédio vizinho, alto e branco, construído há poucos anos ao lado. “Eu trabalhei ali como diarista em um apartamento de um quarto, uma cozinha minúscula e uma salinha. Custa 3.500 reais só o aluguel”, conta ela, satisfeita do lugar maior e “maravilhoso” em que mora. Em meados de 2018, o metro quadrado de um imóvel na Bela Vista variava de 7.592 reais o metro quadrado (dois dormitórios) a 8.464 reais (um dormitório), segundo o Sindicato da Habitação (Secovi-SP), principal entidade do setor imobiliário paulista e a maior da América Latina. “No começo os moradores de lá não aceitavam a gente, mas hoje aparecem nas nossas festas. Quando veem que não somos um bicho de sete cabeças, passam a ser nossos amigos”, conta Marcia. “Quando morava longe, também achava que ocupação era invasão. Até precisar morar em uma. Passei a entender que ocupar é para dar vida e melhoria a alto que estava se deteriorando com o tempo”.

As melhorias são visíveis. Cada família na ocupação fica responsável por arrumar e reformar o seu próprio apartamento a seu gosto, mas cada uma também deve contribuir com 220 reais por mês para arcar com os gastos do edifício: as câmeras de vigilância, os extintores de incêndio, as lâmpadas que mantém o imóvel sempre iluminado, o salário dos que trabalham na portaria ou na parte administrativa e de assistência social, pintura, os reparos estruturais que devem ser feitos… Não há encanamentos expostos ou gambiarras elétricas: tudo foi feito profissionalmente e a situação junto às concessionárias de água e energia está sendo regularizada.

O MSTC é liderado por Carmen Silva com a ajuda dos filhos Janice “Preta” Ferreira da Silva e Sidney Ferreira da Silva. É um dos mais conhecidos grupos da Frente de Luta por Moradia (FLM), que reúne outras dezenas de siglas. Mas é por causa dessa contribuição de 220 reais, definida no estatuto do MSTC, que Carmen e seus filhos, detidos desde 24 de junho, são acusados de extorsão. “Em todos os movimentos de moradia existem contribuições coletivas, inclusive previstas nos regimentos e debatidas nas assembleias de moradores. Todos que ingressam nas ocupações tomam ciência que terá que contribuir”, explica o advogado do movimento Ariel de Castro Alves. “Se essas contribuições forem extorsões, quem paga condomínio e clubes também estariam sendo extorquidos”, argumenta.

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