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O centenário de Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo

Matheus Drummond, Salvador (BA)

Os festejos juninos animam todo o Nordeste. É a força da cultura de um povo e de um lugar. Muitos contribuíram para que esta cultura popular ganhasse a dimensão que tem hoje. Sem dúvida nenhuma, Luiz Gonzaga foi o tribuno maior, cantando a saudade, as dores e as delícias do universo nordestino, mas foi José Gomes Filho, artisticamente conhecido por Jackson do Pandeiro (31/08/1919 – 10/07/1982), quem abriu caminho às festas e ao lúdico da cultura nordestina.

Negro, pobre, analfabeto, autodidata, nascido em Alagoa Grande na Paraíba, filho de uma cantora de coco – Flora Mourão – e do oleiro José Gomes, Jackson do Pandeiro fez do baião, do xote, do xaxado, do coco, do arrasta-pé, do repente e da quadrilha os ritmos que os conduziria ao mundo artístico.

Foi engraxate e padeiro, mas largou tudo pela música. Desde os 17 anos decidiu dedicar-se somente à música. Mudou-se com a mãe e os irmãos, após a morte do pai, para Campina Grande, onde formou dupla com José Lacerda (irmão de Genival Lacerda) e passou a ser disputado pelos artistas e grupos musicais para tocar em clubes e festas.

Nos anos de 1940, mudou-se para João Pessoa. Tocava nas boates e cabarés da capital. Ganhou destaque e foi contratado pela Rádio Tabajara para tocar na orquestra da emissora sob a regência do maestro Nozinho, que mais tarde levou Jackson do Pandeiro para Rádio Jornal do Commercio, em Recife.

Jackson foi devorando ritmos e técnicas de percussão. Aprendeu a tocar diversos instrumentos: zabumba, bongô, tamborim, reco-reco, bateria, e o pandeiro, que em suas mãos se transformava em uma verdadeira orquestra.  Mas somente aos 35 anos de idade, em 1953, gravou o seu primeiro grande sucesso, um coco onde convida a comadre Sebastiana para cantar e xaxar na Paraíba (“Sebastiana”, composição de Rosil Cavalcanti).

Gênio
Franzino, Jackson do Pandeiro era um gigante no palco. Gingava, cantava, e brincava com os ritmos. Sua genialidade chamou atenção da indústria cinematográfica. Entre 1958 e 1962, apareceu cantando e dançando em pelo menos oito filmes nacionais.

Brincava com as músicas, transformava a estrutura das frases, quebrava a lógica das estrofes as reconstruía sobre o compasso original. Tudo isso de forma tão natural, o fazia com a voz e com o pandeiro. Seu sonho de menino era ter uma sanfona, a pobreza não permitiu. Mas a pobreza não arrancou seu talento, tornou-se um exímio “sanfoneiro de boca” e que, apesar de não tocar aquele instrumento, imitava seu som mostrando aos músicos o que queria que eles executassem.

Esse artista tinha uma característica de divisão métrica dentro da música que é inato. Nem ele conseguia explicar. Pegava uma frase melódica, com tempo e marcação definidos e saia quebrando isso o tempo todo. Ás vezes adiantando, às vezes atrasando, mas sempre ao final coincidindo com os acordes da música. Essa brincadeira que o Jackson fazia com a voz e com as músicas é algo realmente impressionante. O grau de sofisticação, a técnica que ele usava e ao mesmo tempo a intuição, que é aquela coisa natural que vinha espontaneamente e nunca se repetiu e provavelmente nunca se repetirá porque dificilmente surgirá outro como ele”. A afirmação é do jornalista Fernando Moura, que ao lado do também jornalista Antônio Vicente, lançou em 2001, pela Editora 34, a biografia do músico, intitulada “Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo”, que apresenta a vida e a obra do músico.

Tanto talento não poderia ficar restrito ao Nordeste. Jackson do Pandeiro mudou-se para o Rio de Janeiro em meados de 1950 e de lá conquistou o Brasil.  Estourou na Rádio Nacional e emplacou um sucesso seguido de outro: “O Canto da Ema”, “Chiclete com Banana”, “Um a Um”. Na TV Tupi, entre 1954 e 1958, apresentou programas musicais em que revelava artistas e seu próprio repertório.

Passou também a compor e a cantar marchas e sambas, sem abandonar os ritmos de suas origens. Foi campeão de samba em diversos carnavais no Rio de Janeiro, no meio de tantos bambas. Foi diretor artístico do primeiro disco de Bezerra da Silva, “O Rei do Coco”, lançado em 1976, e ainda participou de todas as músicas do álbum como instrumentista. Não à toa, ficou conhecido como o rei do ritmo.

Jackson do Pandeiro foi um grande entusiasta da cultura popular do Nordeste. Sem dúvida nenhuma, ele e Luiz Gonzaga promoveram a nacionalização das canções e gêneros populares nordestinos. Morreu cantando e divulgando a cultura do seu povo e do seu lugar. Faleceu os 62 anos, na cidade de Brasília, em decorrência de complicações de embolia pulmonar e cerebral. Tinha participado de um show na cidade uma semana antes e no dia seguinte passou mal no aeroporto antes de embarcar para o Rio de Janeiro. Hoje seus restos mortais se encontram em Alagoa Grande (PB).

Jackson do Pandeiro merece todas as homenagens por seu centenário. Mais do que isso, merece reconhecimento por tudo que fez pela música e pela cultura brasileira, em especial a nordestina.

PARA LER
– Jackson do Pandeiro, o rei do ritmo. Editora 34. Autores: Antônio Vicente e Fernando Moura.

– Jackson do Pandeiro em Quadrinhos. Editora Patmos. Autor: Fernando Moura. Ilustrações: Megaron Xavier.

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