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Artigo | Música nordestina contemporânea: resistência e identidade cultural

Esta manifestação sempre foi engajada, fosse através das toadas de lamento dos escravos ou nos aboios dos vaqueiros

Cristiane Nepomuceno *

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

"Desde os anos 1990, o Nordeste vem sendo palco de um processo de renovação musical, um estilo que resulta da fusão de vários estilos". - Créditos: Reprodução
“Desde os anos 1990, o Nordeste vem sendo palco de um processo de renovação musical, um estilo que resulta da fusão de vários estilos”. / Reprodução
“A justiça com sua espada de leviatã na mão/
Pronta para ser usada/
Com sua venda nos olhos/
Trazendo consigo o mito da imparcialidade.”

Magistrado ladrão. Cabruêra - Álbum: O samba da minha terra, 2004.
(Composição: Zé Guilherme)

A música do Nordeste é muito diversificada e representativa das matrizes étnicas que em seu território convivem há séculos. Essa longa convivência deu origem uma música peculiar, um espelho fiel da nossa miscigenada formação histórico-cultural. Destas matrizes o Brasil herdou seu instrumental, seu sistema harmônico, seus cantos, suas danças, ritmo e cadência, junção dos ritmos uma amálgama cultural: dos batuques e síncopes dos africanos (batuques dos acompanhados de percussão, tambores, atabaques e marimbas e ainda palmas, xequerês e ganzás), dos nativos (cantos das danças rituais indígenas acompanhadas por instrumentos de sopro – flautas de várias espécies, trombetas e apitos – e por maracás e bate-pés) e dos europeus (música erudita, música religiosa, cantachão das missas e hinos e os toques e fanfarras militares). Esta música desde a sua origem foi engajada, comprometida com o mundo real, fosse através das toadas de lamento dos escravos saudosos de sua terra natal ou dos aboios dos vaqueiros que transmitiam através do canto o seu cotidiano de luta em um ambiente inóspito e rústico.

Desde o início dos anos 90 do século XX o Nordeste vem sendo palco de um processo de renovação musical, um estilo que resulta da fusão de vários estilos, um processo de hibridização consubstanciando-se a partir da revalorização do tradicional forró pé-de-serra, das sambadas de maracatu, das rodas de coco, das emboladas, repentes, aboios, repente, poesia popular, os benditos e as incelências, os batuques de terreiro afro, a literatura de cordel com tendências musicais mais modernas, como o rock, o hip hop, o reggae.

“Eu sou do baqueado/ Do pandeiro bem levado/ Do batuque e do repente/ Do gingado e do suingue diferente./
Do sambafunksoul do rock e do baião/ Do Jackson hip-hop do Luiz o Gonzagão/
Na rufada do maracatu/ No xote e no xaxado/ No pique rebolado regulado/
Na ginga improvisada/ No fervor da embolada/ Na levada no breque/
Na banana e no chiclete/ Eu sou do som do meu Nordeste/ Sou também cabra da peste/
Paraibano e não me engano” (Parapoderembolar – Cabruêra, 2001).

Combinando instrumentos tradicionais nordestinos (rabeca, viola, tambor, berimbau, pandeiro, zabumba) aos sons da guitarra, do baixo e da bateria resultando uma música que a muitos encanta, por nela ser possível identificar as temáticas que cantam a alma do povo nordestino (seca, migração, banditismo social, coronelismo, …) funcionando como meio não só de fortalecimento da herança musical, mas também de despertar o desejo por reabilitar e manter sua identidade cultural.

Assim, as letras tratam do cotidiano nordestino numa perspectiva de crítica social: a condição miséria, desigualdade, corrupção, migração, violência urbana:

“E a cidade se apresenta centro das ambições/
Para mendigos ou ricos e outras armações /
Coletivos, automóveis, motos e metrôs/
Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs/
A cidade não pára a cidade só cresce/
O cima sobe e o de baixo desce.”
(Manguetown, Album: Afrociberdelia – Chico Science & Nação Zumbi, 1996).

Mas, também tratam da sabedoria popular e dos valores fundamentais do povo nordestino: força, destemor, honra e coragem, além da fé, misticismo, faz promessas, incita esperança:

"O sabiá no sertão/ Quando canta me comove/ Passa três meses cantando/
E sem cantar passa nove/ Porque tem a obrigação/ De só cantar quando chove. (…)

Meu povo não vá simbora/ Pela Itapemirim/
Pois mesmo perto do fim/ Nosso sertão tem melhora/
O céu tá calado agora/ Mais vai dar cada trovão/
De escapulir torrão/De paredão de tapera”
(Chover ou invocação para um dia líquido – Cordel do Fogo Encantado, 2001/Composição: Jose Paes de Lira Filho e Clayton Barros).

Acreditamos que a maior contribuição desses movimentos esteja na possibilidade de difundir os valores, as temáticas, os sons e as manifestações tradicionais do Nordeste entre os jovens. De forma híbrida, o novo é incorporado, renovando a tradição, tornando-a viva, mostrando que é possível o passado coexistir com o tempo presente e voltar-se para o futuro, permitindo a juventude se reconhecer como parte e resultado desse fazer cultural, despertando-lhes a consciência de pertença, de identidade, de apego ao lugar, um processo de auto-(re)conhecimento e de (re)afirmação da identidade cultural. Como no dizer de Câmara Cascudo, a música é expressão essencial da vida.

Que a nossa música possa funcionar como meio de fortalecer e despertar o desejo por reabilitar e manter a identidade cultural do povo nordestino.

“Viva Zapata!/Viva Sandino!/Viva Zumbi!/
Antônio Conselheiro!/Todos os Panteras Negras./
Lampião, sua imagem e semelhança./Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.”
(Monólogo ao Pé do Ouvido - Chico Science e Nação Zumbi).

*Antropóloga, pesquisadora, professora da UEPB/NEABI

Edição: Heloisa de Sousa

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